Cuida

É só uma brincadeirinha…

Por Carol Sarmento 

Aconteceu um dia desses, no plantão. Chego para ver um paciente do sexo masculino, 7ª década de vida, com quadro de insuficiência respiratória em manejo não invasivo, indo bem com tratamentos ventilatórios que não demandam um tubo garganta abaixo. Entro no quarto, dou boa noite, me apresento a ele e ao amigo falante que o acompanha, faço algumas perguntas no intuito de saber como foi a tarde, como ele está passando, como estão seus sintomas e sua sensação de bem-estar.

Repara como ela é novinha”. Respiro. “Olha que carinha boa, de bem-nascida. Transpira o frescor da juventude, nem deve saber pra quê serve trabalhar”… Respiro de novo e sigo focada na parte técnica da minha conversa. “Deve ter bastante plástica aí, hein? Deve ser mimada demais, não?”… não me aguento e, delicadamente, replico: “vou tentar levar suas observações como uma gentileza, mas tenho quase 18 anos de medicina nas costas e 41 anos de vida, e não sou inexperiente como o senhor imagina”. Respiro eu e silêncio ele. “Vai ser um prazer cuidar de vocês hoje e acredito que teremos uma noite tranquila, senhores”. Agradeceram. E ouvi a seguinte frase: ”E NÃO É QUE ELA PARECE TER MAIS DE DOIS NEURÔNIOS?”. Surpreendentemente, ele disse isso sorrindo.  Respirei mais uma vez e mandei, com a voz firme que pude encontrar: “o senhor não se refira assim a mim. Suas falas foram extremamente inconvenientes desde o momento que entrei aqui.”. “MAS É SÓ UMA BRINCADEIRINHA, SABIA?”.

Não, não é só um chiste, uma gozação, uma zoeira, ou qualquer sinônimo que você escolher. Quem é mulher e está na lida da medicina certamente já ouviu coisas do tipo, e eu gostaria de te dizer que essa não foi a primeira, não será a última, e já passou da centésima vez que ouço coisas parecidas. Se a minha aparência é jovial, denota inexperiência e falta de horas de voo; se meu jeito é acolhedor e bem-humorado, pareço imatura ou não profissional. Se a vestimenta for menos formal do que enseja o protocolo do imaginário coletivo, ouço o pedido, feito como se eu fosse a residente, para chamar o chefe – que, no caso, sou eu mesma. Tudo isso pareceria até passível de discussão sobre o assunto, não fosse o fato de que os relatos não aconteceriam se eu fosse um homem. Te garanto isso. 

Uma ressalva: não estou aqui levantando a bandeira de que mulheres são melhores que homens, mas sim de que a sociedade não está enxergando o trabalho excelente e os indicadores que mostram cabalmente que não cabe mais essa diferenciação no jeito de tratar e enxergar profissionais do sexo feminino. Não trarei minhas impressões, e sim o que a literatura médica já sabe. Você está pronto para essa conversa? 

Mulheres tendem a ter melhores resultados que homens quando à frente de cirurgias, tão mais se o paciente for do sexo feminino, dado trazido pelo JAMA Surgery em 2022. E a grande questão não é que mulheres e homens tenham diferenças em habilidades técnicas, ou que um é melhor que o outro. NÃO! Simplesmente, os melhores resultados se devem ao fato de que as mulheres cirurgiãs são mais detalhistas, meticulosas, colaborativas e fazem mais perguntas: o que melhora o contato entre membros envolvidos das equipes e a comunicação com o paciente. Ainda, as médicas mulheres dão mais importâncias às queixas dos pacientes no pós-operatório, o que pode levar a melhor percepção dos sintomas e indicar complicações pós cirúrgicas, possibilitando intervenção rápida e com melhores desfechos. E eis a cereja do bolo: os piores resultados ocorrem quando mulheres são tratadas por cirurgiões do sexo masculino. Exemplifico: em sendo a paciente uma mulher, o trabalho mostrou que as queixas e a dor dela não seriam levadas tão a sério se o médico for do sexo masculino, o que demonstrou 15% mais chance de complicações, hospitalização e óbito no primeiro mês após o procedimento no caso do combinado paciente mulher plus médico homem. Ou seja: se o olhar é diferente para mulher médica, também o é diferente para a paciente do sexo feminino. 

Em 2016 o JAMA Internal Medicine trouxe outro estudo que levantou uma discussão parecida, ao publicar uma análise robusta de 1,5 milhão de consultas do Medicare que mostrou melhores desfechos e resultados para mulheres médicas em comparação a homens médicos. Mais uma vez, a discussão recaiu não sobre diferenças técnicas, mas em coisas como melhor comunicação com paciente, maior atenção a queixas, maior tendência à adesão de protocolos e diretrizes clínicas e maior frequência em prover cuidados preventivos. A mesma investigação mostrou que, se os médicos do sexo masculino tivessem os mesmos comportamentos das suas colegas mulheres, aproximadamente 32.000 vidas poderiam ter sido salvas. Sério, isso me arrepia até a alma. 

A AMB (Associação Médica Brasileira) lançou no primeiro semestre de 2023 a demografia médica no Brasil, que mostra que já em 2024 as mulheres passarão a ser maioria na profissão – muito embora a renda anual declarada no grupo das mulheres seja 36% inferior do que no grupo dos profissionais homens – mas isso é conversa longa para um outro momento. Estamos quase representando a maioria da massa profissional, e ainda ouvindo “que é só uma brincadeirinha…”. 

Bem, se você precisar de atendimento médico e uma profissional do sexo feminino se apresentar na sua frente, dê graças a Deus, ao Universo ou a ela mesma: você tem mais chances de ser mais bem acolhido, ter suas queixas atendidas e seus problemas resolvidos com mais sucesso e melhores indicadores – dizem as pesquisas. Não cabe mais (se é que um dia coube!) uma piadinha, um comentário fútil ou uma brincadeirinha sobre o que não seja profissional ali naquela relação. Você não faria isso com um médico homem, não é mesmo? Então, por que fazer com quem pode te entregar os melhores resultados? 

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