Cuida

Então é Natal…

Por Lilia Lavor

É impressão minha ou vocês também estão ouvindo carro de som passando na rua com Simone cantando “Então é Natal, e o que você fez”? É, gente, 2023 está chegando ao fim e quem fez, fez, quem não fez, só no ano que vem.

Nós vivemos numa sociedade de cobrança, mas, não sei se vocês já repararam, no final do ano esse discurso fica um pouquinho mais intenso. É claro que existem algumas coisas que alimentam isso, como as metas que estabelecemos no ano anterior e que nos cobramos no final do ano para saber se a gente conseguiu concluir ou não. Tem as retrospectivas que todo mundo faz, os encontros que também aumentam a demanda, presentes para comprar e as festas onde vamos encontrar pessoas que, às vezes, passamos o ano inteiro sem encontrar. Enfim, existe um tanto de coisa que alimenta isso.

E é natural que quando um ciclo se encerra, a gente faça uma retrospectiva. Acontece quando a gente sai de uma escola, quando muda de emprego, de cidade, de país. Nós temos essa cultura de fazer uma despedida e fazer uma retrospectiva. Isso é legal. Isso ajuda a gente a lembrar do que a gente fez. Isso ajuda a gente a escrever a nossa narrativa, mas pode ser que isso também aumente a cobrança.

Pegamos isso tudo e colocamos no bolinho de final de ano quando já estamos mais cansados, às vezes estamos ansiosos com a perspetiva de tirar férias ou quando a questão financeira dá uma apertada. Se eu perdi alguém querido e tenho alguma questão de luto, pode ser que venha uma sensação de inadequação. Tem toda uma questão da saudade, por ser uma época comemorativa. Algumas pessoas já estão chamando de dezembrite, tem bode de final de ano, tem depressão de final de ano. Por mais que esses nomes sejam uma brincadeira, é importante a gente ficar atento a isso para poder cuidar.

Para se ter uma ideia, o Centro de Valorização à Vida (CVV) teve um aumento de 20% na demanda em dezembro. A Associação Internacional de Gestão ao Estresse fez um estudo com brasileiros e mostrou que existe um aumento de 75% da sensação de estresse em dezembro. Vocês têm noção do que é isso?

Vou pegar um gancho do que eu disse no início para fazermos uma reflexão. É claro que existe uma intensificação desse discurso por conta de toda essa demanda no final do ano, mas tem uma construção para que chegue nisso. A gente vive numa cultura que idealiza a felicidade e não dá espaço para frustração e tristeza. A gente nem sabe lidar com isso.

Vinícius de Moraes estava certo quando ele dizia que o sofrimento é o intervalo entre duas felicidades. Nós só conseguimos valorizar a felicidade porque o sofrimento existe e ele é importante de ser compreendido. Então, é muito importante que durante o ano a gente faça algumas revisões de como a gente está se sentindo para nomear essas sensações e olhar para as nossas frustrações, para entender o que elas nos causam e, assim, poder cuidar delas com mais generosidade.

E, falando em generosidade, uma coisa importante é que, na hora de fazer esse balanço de final de ano, a gente consiga, de fato, ser generoso. Não é porque a Simone está cantando no carro de som que todo mundo tem que estar mergulhado no espírito natalino ou com muita vontade de participar de uma confraternização ou de uma festa de Reveillon. Respeite o que você está sentindo, escute o que você está sentindo, nomeie o que você está sentindo e cuide de você.

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