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Saúde de pessoas transgênero: a jornada do homem trans na busca por um atendimento humanizado 

Por Equipe Cuida

Desde 2003, o mês de novembro é marcado pela campanha mundial de combate ao câncer de próstata. De lá para cá, diversas campanhas foram criadas e a data, aos poucos, foi caindo na rotina do brasileiro assim como a conscientização contra esse mal. 

O problema é que focamos, durante muito tempo, em conscientizar apenas homens cisgêneros, aqueles que se identificam com o sexo designado no nascimento, e acabamos por negligenciar a saúde da população transexual, que também pode ser acometida por essa doença. Além de, claro, focarmos em apenas um mês para falar sobre a saúde do homem, invisibilizando outros momentos. 

Para além disso, é necessário entender também que a saúde e o cuidado masculino não devem ser focados apenas durante o novembro azul. Deve-se incentivar a busca de atendimento em outros momentos do ano. De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (Inca), o câncer de próstata é o segundo mais comum entre os homens no Brasil, atrás apenas do câncer de pele do tipo não melanoma.

Conversamos com Jorge dos Santos, de Brasília, sobre o tipo de atendimento que ele, como homem trans, tem recebido no Sistema Único de Saúde (SUS) e de como ele gostaria que suas necessidades de saúde fossem tratadas. 

Jorge, com que frequência você vai ao médico?

Como faço terapia hormonal tenho que sempre estar em acompanhamento médico, pois os hormônios alteram alguns índices como colesterol, glicemia entre outros. Então, uma vez a cada três meses, tenho que ir ao endocrinologista. E eu sou uma pessoa que tem anemia, então, de tempos em tempos, preciso verificar como estão esses índices no meu corpo. Para além da questão hormonal, também frequento hospital e posto de saúde quando necessário para exames de rotina e consultas. São várias as dificuldades.

Embora eu tenha feito a transição de gênero, ainda preciso de alguns atendimentos que, culturalmente, são voltados para mulheres. 

Como ir ao ginecologista, por exemplo. E muita desinformação ainda permeia a saúde pública, desde o atendente de triagem que não entende que identidade de gênero é diferente de condição sexual, a médicos que não compreendem que existem as identidades transmasculinas, acham que o ser trans é ser apenas mulher trans ou travesti. Então há o constrangimento desde a chegada num ambiente da saúde até o atendimento de fato ocorrer.

A falta de oferta desses atendimentos também é uma grande dificuldade. Nós, pessoas trans, utilizamos o mesmo sistema de saúde, fazemos os mesmos exames, temos as mesmas doenças e adoecimentos que as pessoas cis, mas não temos, por exemplo, a chance de atendimento que uma pessoa cis tem. Quando procuramos uma consulta com um endocrinologista, por exemplo, logo nos jogam para um suposto processo transexualizador – um nome horrível que dá a entender que o SUS transforma pessoas “normais” em pessoas transgênero, mas que na verdade é um protocolo de atendimento voltado para pessoas trans no SUS,  credenciando unidades básicas e hospitais para atender as demandas dessa população. No DF, temos o ambulatório trans, que foi inaugurado em 2017, mas ele ainda não é credenciado para ofertar um atendimento mais amplo, como o acesso gratuito à hormonização e às cirurgias de redesignação sexual, mastectomia e mamoplastia, como há em outros estados.

Então, há essa encruzilhada entre a falta de formação em gênero e diversidade dos trabalhadores da saúde, a não ampliação do atendimento básico de pessoas dissidentes, pois há a possibilidade de atendimento, mas ela não acontecerá pois precisa estar dentro do escopo do processo transexualizador, quando na verdade só precisamos de um atendimento de saúde básica, de rotina.

Os constrangimentos são muitos, como disse, desde o atendente de triagem que não respeita nome social, ao médico que se permite achar que tem o direito de perguntar se eu me sinto confortável com meu genital, perguntando muitas vezes quais modificações corporais já realizei, quais quero realizar, como se fosse uma avaliação do meu nível de transexualidade. Mesmo em ambientes que deveriam ser acolhedores como o ambulatório trans, já passei por constrangimentos por funcionários que não conseguiam disfarçar de maneira alguma a curiosidade, bem como o espanto com meu corpo e imagem.

Infelizmente, ao ir num atendimento médico, muitas das vezes somos as primeiras pessoas trans que aquele/a médico/a atende, e é impossível desviar das perguntas e questionamentos. Querendo ou não, precisamos dizer que estamos em terapia hormonal, sendo uma informação básica da pergunta “está utilizando alguma medicação de uso contínuo?”.

Quando é um atendimento ginecológico, aí a coisa fica ainda pior. Médicos/a que não entendem identidade de gênero e condição sexual julgam o homem trans que é passivo com outros homens, e as violências perpassam todos os gêneros, pois, por ora, somos confundidos com mulheres masculinizadas, ou uma imitação barata de uma masculinidade que socialmente é ancorada no falocentrismo.

Então, ao sair de uma consulta, nunca sei se aquele profissional de saúde me enxergou enquanto ser humano ou como uma aberração sobre a qual ele comentará no horário de almoço com os amigos e colegas.

Eu passei a me reconhecer e a me identificar enquanto pessoa trans em 2016. Posso dizer que nós, essa geração de pessoas dissidentes, fomos cobaias em vários âmbitos, desde o “primeiro trans que eu atendo” a as experimentações de posologia hormonal para o que seria uma transição de gênero ideal nos moldes médicos, entre outras experiências sociais como o surgimento de grupos terapêuticos voltados ao atendimento dessa população.

De lá pra cá, houve muitas pesquisas no âmbito da psicologia, saúde coletiva e demais espaços de construção de narrativas e ideias, o que por consequência educou uma grande parcela de novos profissionais e de pessoas que estavam engajadas nessa temática. Posso afirmar que, embora os desafios hoje sejam grandes, antes eram gigantescos.

Me sinto confortável em afirmar que, sim, muitos profissionais estão, hoje, preparados para atender uma pessoa trans, mas encontrá-los é por vezes difícil, seja pela falta de vaga na unidade de saúde que esse profissional atende ou pela pouca quantidade de pessoas educadas e sensibilizadas pela causa em relação à grande parcela dos profissionais de saúde que temos atualmente.

Para mim, o atendimento ideal será aquele que me acolha em qualquer lugar, em que eu tenha o mesmo acesso, a mesma chance de acesso à saúde como qualquer pessoa cis. Por exemplo, aqui em Brasília, homens cis realizam a mastectomia (retirada da glândula mamária desenvolvida por disfunção hormonal) pelo SUS, é basicamente a mesma cirugia que homens trans realizam para se adequar ao que consideram conforto em seus corpos e vivências. Para ter acesso a essa cirugia, eu tive que gastar mais de 10 mil reais, enquanto qualquer cis tem pleno direito ao procedimento. Então, muitas vezes nós realizamos o mesmo procedimento cirúrgico, a mesma consulta, etc., com o mesmo médico que atende no SUS, mas como não somos cis não temos acesso. Então, acessamos por via particular com esses mesmos profissionais que outrora tentamos atendimento gratuito e de qualidade.

E isso é violento. Como pode uma população que, estatisticamente, não tem acesso à empregabilidade ter que recorrer muitas vezes a um empréstimo para tentar minimamente ter uma qualidade de existência? E os que não podem pegar esse empréstimo? Ou ter o luxo de trabalhar e guardar todo o ganho para a realização desses procedimentos, como ficam essas pessoas? 

E como seria um atendimento ideal para você? 

Um atendimento médico ideal perpassa pela humanização de nossas vivências, nossos corpos e sexualidades, em que eu vou numa triagem médica e a/o atendente vê um nome no sistema que não condiz com a imagem que à sua frente e pergunta “qual seu nome?”, de uma consulta em que eu não seja questionado da minha escolha de “virar homem”, que a minha identidade não seja entendida como escolha e/ou fantasia política, que um/a médico/a me atenda de forma integral e humana, não jogando pra protocolos algo que ele pode fazer/resolver ali.

Um SUS que ofereça a terapia hormonal gratuita e de qualidade para que eu não precise recorrer à hormonização clandestina, pois a ampola de testosterona está custando mais de 200 reais. Que eu possa realizar meus procedimentos cirúrgicos de forma gratuita como qualquer pessoa cis. Eu sou um cidadão como qualquer outro, não quero privilégios, quero direitos, direitos estes que são legais, e que a grande maioria da população tem. Precisamos de equidade na saúde pública. Temos, sim, demandas diferenciadas, mas essas demandas são completamente supridas com um atendimento de qualidade, com profissionais aptos a atenderem e entenderem nossas especificidades no âmbito da saúde mental e física”, finaliza.

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